05.21.08

Uma estória.

Publicado em Trabalho em casa às 11:28 pm por Pop Corn

Abri a porta do quarto. Encostei a cadeira num canto e chorei. Chorei as lágrimas que lhe devia. Era uma dívida que só agora ele se lembrou de me cobrar. O país está em crise e ele, claro, cobrou-me com juros altíssimos. Fechei as mãos e bati contra o peito. Os olhos também estavam fechados. A vergonha da cobardia impedia-me de assistir aquele espectáculo deprimente. Eram quatro da manhã.

Não lhe devia ter dito o que lhe disse. Mas ele também não foi manso para mim. O ataque é a melhor defesa, mesmo que depois esse ataque se vire contra nós sob a forma de remorso. Um arrependimento que nos corrói e nos agrilhoa o pensamento.

O dia até tinha começado bem. Fui trabalhar. E como todas as manhãs encontrei uma velha amiga: a bicha de carros à entrada da cidade (não, não digo fila! Sou do norte e em Roma sê romano!). Cafezinho, sorrisos falsos que enfrento há anos, sorriso falso que dou há anos, é a vida, impessoal e alienada do mundo que insiste em manter-nos assim. Mentira. Nós é que fazemos o Mundo e o mundo(inho) que nos diz particularmente respeito ainda é mais da nossa responsabilidade.

Tinha de refazer o projecto de urbanização do bairro da Quintinha. Mas por que raio os ciganos tinham de ser contra à construção de um parque infantil?? Segundo eles, um parque infantil é inútil para as suas mais de 80 crianças! Então é melhor construir um espaço coberto para as feiras semanais. O Presidente como precisa do dinheiro que o patrono lhe dá para as campanhas eleitorais, chama a arquitecta de serviço e o resto da história já dá para imaginar.

O dia estava a acabar. O projecto estava concluído. Mas a jornada ia ser longa.

Ele estava à espera à porta do prédio. Com a barba por desfazer, ombros descaídos, olheiras que denunciavam muitas noites em branco e o casaco castanho, que eu lhe dei quando fez 20 anos, já todo roçado. Olhei para o casaco e vi em que estado estava a nossa relação. No telemóvel não tinha nenhuma mensagem a dar conta da visita. Senti as batidas do meu coração por todo o corpo. A boca ficou seca. Com as mãos a tremer, desliguei o carro. Todos os dias, a distância entre o carro e a porta do prédio me parecia de quilómetros que eu tinha de percorrer a arrastar a cadeira de rodas. Mas naquele momento, a distância passou de quilómetros para centímetros. Com as chaves a tilintar porque as mãos continuavam a tremer, abri a porta. Só depois olhei para ele e dei boa noite.

 - “Porquê?” – foi a primeira coisa que ele me disse.

Não nos víamos há 5 anos. A última vez que estivemos juntos foi numa quinta-feira. Era um feriado católico conhecido como dia do Corpo de Deus. [Curioso eu mencionar este facto.] Era para ser um almoço de família. Mas não aconteceu.

Fiquei de ir buscar a Maria à casa de uma amiga de infantário. Voltei pelo caminho que me cansei de percorrer durante anos. Conhecia as pedras da calçada pelo nome, que eu própria lhes dei quando ia para a escola. Eu tinha saído na noite anterior. Dormi duas horas. Não me lembro de mais nada. Só de acordar no hospital e sentir-me partida em dois pedaços.

 - “Nunca devias ter levado a Maria contigo!”, “Como foste capaz de ma tirar? O que é que eu te fiz?” “Acabaste com a minha vida. Agora é a minha vez de acabar com a tua!” – os olhos dele estavam gelados. Uma frieza que me chegou aos ossos. Não consegui dizer nada. Só pensava em fechar os olhos e as mãos como fazia em criança para pedir que os monstros saíssem do meu quarto. Queria voltar a sentir o beijo da mãe quando esticava os cobertores até me taparem a boca.

 - “Tu é que devias ter morrido! Não fazes cá falta nenhuma, ainda por cima paralítica.”

Eu já tinha acusado aquelas mesmas palavras a mim própria tantas vezes que quando foram ditas por outra pessoa, eu estranhei-as. Revoltei-me.

- “Só depois de a Maria ter morrido é que sentes a falta dela? Quando ela te pedia para lhe leres uma história à noite, os relatórios da empresa eram sempre mais importantes… nunca lhe deste atenção… não me acuses de uma coisa da qual não tenho culpa. Foi um acidente.” – neste momento, senti um sabor salgado tocar-me nos lábios. Só depois percebi que eram lágrimas. Não chorava há cinco anos. Tinha-lhe perdido o jeito. Rematei a minha defesa com o pior dos ataques: “Não te esqueças que por tua vontade, a Maria já tinha morrido há muito mais que cinco anos, aliás, ela nunca teria nascido!”

O sabor salgado também tinha chegado aos lábios dele. Virou as costas e foi-se embora. Vi aquele casaco cambalear-se até ao fim da rua. Quando deixei de o ver, soube que era o fim.

05.14.08

Que ensaboadela.

Publicado em Interesses pessoais às 8:43 pm por Pop Corn

“How much can you know about yourself if you’ve never been in a fight?”

05.12.08

O amor é verde?

Publicado em Trabalho em casa às 9:23 pm por Pop Corn

Ontem o Herman falou mais uma vez na Natália de Andrade. Fui investigar e descobri o seu grande êxito “Canção Verde”. Só ouvindo… :-D

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05.06.08

Porque devemos olhar para além do nosso umbigo.

Publicado em Interesses pessoais, País e o Mundo às 2:13 pm por Pop Corn

E ver o verdadeiro tamanho dos nossos problemas.

A song for the Unloved, BSB.
UNICEF